morando em bastia, que é perto de assis, no meio da itália. odiei berlim, logo, meu diploma foi comprado.





 
Archives
<< current







 
leticia, ex-médica, professora de Inglês, tradutora, ex-vendedora de presunto de javali, adoro cozinhar, nao gosto de comments entao me manda um e-mail, meu cachorro é um espetáculo!

Leticia/Female/26. Lives in Italy/Umbria/Bastia, speaks Portuguese, English and Italian. Spends 40% of daytime online. Uses a pretty fast connection.
This is my blogchalk:
Italy, Umbria, Bastia, Cipresso, Portuguese, English, Italian, Leticia, Female, 26.





























pacamanca
 
Sexta-feira, Março 19, 2004  
Soh pra reforçar a mensagem:

o pacamanca fez que nem eu: migrou!


posted by leti at 06:50

 
Olha so, crianças... Mudei!



posted by leti at 06:49

Quinta-feira, Março 18, 2004  
Momento Grande Fratello (Fratellão pros íntimos):

Carolina é uma piranha, Tommaso é um paraculo, Katia é uma mala, Serena é maluca, Rob, Bruno e Patrick são sensacionais, Ascanio é ridículo. E o melhor da casa é o Rodolfo, filhote de Terranova que acabou de ser integrado à casa.


posted by leti at 23:00

Quarta-feira, Março 17, 2004  
Domingo, antes daquela cachorração toda, resolvi aproveitar a temperatura agradável pra dar uma guaribada na minha mini-micro-horta de varanda. Além da jardineira comprida que a Arianna me deu meses atrás, na qual plantamos salsinha, alho, hortelã e aipo, eu comprei um vasinho de tomilho, um de tulipas, um de uma planta meio cactus mas com florzinhas bonitinhas, e sementes de manjericão e de cravos. Arianna me deu um vasinho de alecrim. Na sexta-feira eu tinha comprado mais uns vasos maiores e mais bonitos e um pacote de 20 quilos de terra, e no domingo transplantei o alecrim e o tomilho pra esses vasos grandes e fiz uma coisa que eu nunca tinha feito na vida: plantei sementes. Adorei a experiência. Queria tanto morar numa casa pra ter um jardim e poder me dedicar a essas coisas! Claro, ainda tenho que ver se os raios das plantas vão nascer. Não duvido nada que eu tenha plantado tudo errado e as bichinhas resolvam não sair da casca. Vamos ver.

**

Então segunda-feira começou o tal treinamento pra vendedor de seguros. Na verdade eles trabalham muito mais com investimento e planos de previdência do que com seguros, coisa que eu não sabia. No primeiro dia achei tudo um saco, fora a parte da tarde, dedicada ao sistema previdenciário italiano – muito esclarecedor. As pessoas que participam são meio estranhas:

Giacomo, de Fabriano, da mortíssima região Marche, onde nada acontece. É um sujeito alto, jogador de basquete, com voz profunda mas faz muitas pausas quando fala. É bonzinho e razoavelmente esperto e ontem implorou pra eu falar português na mesa do almoço. Acabei ligando pra FeRnanda e ele achou interessantíssimo.
Adele, que é de Abruzzo mas mora em Fabriano também. Uma lourinha baixinha e atarracada muito esperta, agitada e sorridente. Gostei dela.
Fabrizio, perugino (começamos mal) com o cabelo entupido de gel todo penteado pra frente (continuamos mal), cuja auto-apresentação na segunda consistiu em “a única coisa interessante e característica da minha vida é que sou fanático por futebol” (nem preciso dizer que a partir dessa palavra “fanático” essa criatura passou a ser ignorada pela minha pessoa).
Sabina, de só 19 anos, moradora do Lazio, uma chata de galocha, capa e guarda-chuva. Hiper arrogante porque é magra e tem um brilhante no nariz e outro no dente, e porque já trabalha na agência de seguros há um mês. Volta e meia solta comentários do tipo “aaaah, realmente, isso acontece muito”. Acontece muito o quê, cara-pálida? Um mês de experiência enfurnada numa agência te ensinou o quê? Maquiadíssima, fuma e tem orgulho disso, usa sapatos com ponta fina estilo mata-barata-no-canto-da-parede. Também digna do meu desprezo.
Silvia, perugina (começamos mal), advogada recém-formada, com dentes tortos E cinza (pronto, já não existe mais pra mim. Quem é Silvia?). Repete tudo o que o instrutor fala como se fosse uma conclusão brilhante dela mesma, diz coisas sem sentido só pra dizer alguma coisa. Mais ou menos como “Ah, é, mas então... Sabe? Pois é.”
Michela, perugina sem sotaque (começamos bem), formada em Ciências Políticas, suuuper calada mas muito clara e sintética quando abre a boca. Parece muito tímida, mas é inteligente. Se veste MUITO mal.
Antonio, napolitano barbudo que mora em Perugia há 9 anos. Muito calado mas simpático e não-burro.
Riccardo, de Foligno (começamos mal), clássico italiano Cepacol, magro, alto, de camisa social justa com colarinho altíssimo e punhos grossíssimos, gravata com nó gigante, calça justa e blazer de grife. Super calado. Fuma e tem cara de bobo.

O instrutor se chama Massimo e tem bem cara de vendedor de seguros mesmo. Muito esperto, engraçado, simpático, diplomático, também é jornalista esportivo e tem vários clientes jogadores de futebol. Gostei dele.

Pois então: segunda foi um dia chato, mas ontem foi mais divertido. De manhã falamos sobre comunicação. Depois de muito falar, Massimo nos fez ir lá pra frente contar alguma coisa que nos tivesse acontecido – qualquer coisa, só pra testar nossos talentos de comunicação. Eu contei o dia em que eu e Valéria almoçamos em Capri na casa de uma família que não conhecíamos, cuja prima Valéria conheceu no barco que nos levou de Sorrento a Capri. Fui aplaudidíssima e muito elogiada pelo meu incrível domínio da língua italiana, pela minha mímica facial expressiva, pelas risadas que provoquei – tudo coisa que eu já sabia, mas não custa nada ouvir de vez em quando. Mais tarde, conversando a sós com o Massimo, ele disse que eu não posso desperdiçar esse talento, não posso jogar fora esse emprego, que sou uma vendedora nata. Não gosto de vender, apesar de saber que o faço bem. Mas quanto a uma coisa ele tem razão: não posso jogar fora a oportunidade desse emprego. É uma empresa consolidadíssima no mercado italiano e internacional, há boas perspectivas de crescimento na carreira, o salário é ótimo, não vou ficar enfurnada numa agência mas rodando e conhecendo gente de tudo que é tipo, vou poder organizar meu próprio tempo, e ainda por cima vou aprender a mexer com dinheiro. Nunca tive grana suficiente pra investir em nada e não gosto de números, então realmente não entendo nada do assunto, mas gostaria de. Então acho que vou pegar. O treinamento vai até sexta-feira, e na segunda tenho que me apresentar na agência pra começar o estágio remunerado de 4 meses, renovável por mais 4, com possibilidade de carteira assinada no final desse período. Vamos ver. Se eu não gostar, pulo fora.

**

No almoço de ontem, Fabrizio o Perugino Retardado deu mais mostras do seu retardamento. Como qualquer pessoa limitada por um só interesse na vida (futebol, no seu caso), sua visão do mundo é muito restrita e sua ignorância é impressionante. CLARO que o papo acabou caindo no Brasil, e CLARO que ele começou a soltar um monte de besteira e eu acabei me irritando seriamente. Tipo:
- Ah, só de escutar a palavra Brasil eu já sinto um clima...
- Clima de quê, Fabrizio? É um país como outro qualquer.
- Ah, não é não... Tem toda aquela alegria, as festas, as pessoas dançando na rua...
- Quem foi que disse que as pessoas dançam na rua?
- Ah, todo mundo sabe!
- Todo mundo sabe também que todo italiano é mafioso e dança tarantella.
- Não é verdade!
(olhar congelante da minha parte)
- Eu sei também que rola muito tráfico de órgão no Brasil.
- Tenho certeza de que rola, como também rola aqui, mas o campeão mundial de tráfico de órgãos é a Albânia, meu querido. Nossos problemas são outros.
- Não, tenho certeza que é assim!
- Querido... Eu sou brasileira, morei lá minha vida toda. Você NÃO vai querer discutir comigo sobre o meu próprio país, vai por mim.
- Po, mas eu sei que é um país muito atrasado...
- Em muitas coisas sim, mas em tantas outras estamos anos-luz à frente da Itália. (mencionei o nosso avançadíssimo sistema bancário e as nossas eleições automatizadas. Ele fez cara de “é mentira”. Sorte dele que não tenho porte de arma).
- Fabrizio, na boa... Se você não sabe nada sobre um assunto, e claramente você não sabe nada sobre muitas coisas, é melhor ficar calado. Fica quietinho, fica.

Massimo muda habilmente de assunto. Fabrizio acende um cigarro, arregaça as mangas da camisa e vemos uma originalíiiiiissima tatuagem de teia de aranha no cotovelo. Também há um tribal muito mal feito no antebraço esquerdo e mais duas tatuagens nas costas. Pronto! Esse menino, que antes gozava apenas do meu saudável desprezo, agora entrou na categoria “o mundo seria melhor sem ele”.

**

Hoje o assunto é técnicas de venda. Acho que vou me divertir. Quero só ver Silvia, Fabrizio ou a mala da Sabina simulando vendas. Deles eu não compraria nem uma bala Juquinha. Minha religião não permite ter nenhum tipo de contato com gente da minha idade que tem dentes tortos E cinza.


posted by leti at 07:42

Domingo, Março 14, 2004  
Legolas andou tendo um caso com uma dálmata da oficina em frente à do Mirco. A cachorra sempre foi agitadíssima, desde filhote, e eu cansei de botar água na cumbuca dela porque, na agitação, ela acabava virando a tigela. De tão chata que ela é, acabaram deixando-a acorrentada, coisa muito comum por aqui e que eu acho de péssimo gosto, mas essa cachorra é MUITO chata, pula em cima dos outros, suja todo mundo, corre sem parar, é birutinha. Mas fazer o que, tem gosto pra tudo: Leguinho se apaixonou e nasceram 5 filhotes, 4 machos pretos e uma fêmea malhada que alguém já levou pra casa. Hoje de manhã fomos ver os pimpolhos. Deleitem-se.






















Houve boatos sobre a verdadeira paternidade dos rebentos, mas o jeito de sentar não deixa dúvidas. Meu cachorro finalmente desencalhou, depois de 6 anos de celibato total! Uhuuu!

**

Aproveitamos a manhã cachorral pra dar banho nos cachorros na Arianna. Aqui vemos Demo no início do processo, lambendo a água com sabão da cara, e com cara de eu-sou-o-mais-miserável-dos-cachorros, no final, curtindo o efeito porco-espinho.









posted by leti at 14:53

Sábado, Março 13, 2004  
Plantão Pacamanca informa: Legolas é papai. Mais informações amanhã.

posted by leti at 22:40

 
Era uma vez um artroscopia

Então o Mirco tinha um pedaço de menisco supostamente solto que tinha que ser removido. O ortopedista opera regularmente no hospital de Terni, a outra província da Umbria, a uns 70 km daqui. Então lá fomos nós sair de casa cedo na quinta-feira, pra chegar cedo a Terni. Chovia e fazia frio e o Mirco, além de estar morrendo de fome por estar em jejum, estava muito nervoso.

O hospital é grande, mas, como tudo na Itália, incrivelmente desorganizado. Pergunto na portaria qual o andar da clínica ortopédica: quarto andar. Subimos. No quarto andar, nenhum tipo de recepção, só alguns cartazes escritos à mão indicando direções opostas àquelas indicadas pelas placas oficiais, em letras brancas sobre fundo azul. Fomos parar na parte de Day Hospital Ortopédico, onde esperamos meia hora sem ver ninguém até que eu cacei uma enfermeira que passava pra perguntar se era ali mesmo que deveríamos estar. Não, querida, vocês têm que ir lá pro outro lado, no fim do corredor, na enfermaria de Ortopedia (onde não havia ninguém antes, e cujas portas estavam fechadas, e cujas luzes estavam apagadas). Lá vamos nós. Tocamos a campainha, abrem a porta, vamos lá falar com a enfermeira-chefona, que nos dá uma bronca por não termos chegado antes. Levam o Mirco pra enfermaria, onde colhem sangue pros exames pré-operatórios e rodam o ECG. Inicialmente me mandam sair, enquanto os médicos fazem o round, mas quando digo que sou médica alguém me arruma um jaleco pra eu poder ficar lá dentro. Os outros dois pacientes do quarto são um senhor que fez uma hilária cara de incredulidade quando lhe foi comunicado que sua operação, de coluna, vai ser feita na segunda-feira depois da Páscoa (aqui eles comemoram a Pasquetta, na segunda-feira, e a sexta-feira santa não é feriado como no Brasil), e um quarentão simpático com um descolamento do menisco direito.

As horas passam. O senhor almoça; Mirco e Claudio, o quarentão, são mantidos em jejum. Não vem ninguém dizer nada, perguntar nada, explicar nada. De vez em quando vou lá fora no corredor perguntar a alguma enfermeira se há alguma previsão de horário pra cirurgia. Ninguém sabe nada. Não estou nervosa porque sei que hospital é confuso mesmo, imprevistos acontecem e horários são difíceis de ser respeitados. Mas sempre achei uma profunda falta de respeito essa mania de achar que o paciente tem mais é que esperar quietinho. Poxa, neguinho nervosão, frágil, sentindo dor, preocupado, e tem que esperar HORAS sem saber o que está acontecendo, sem saber direito o que vão lhe fazer? Eu já levei a família inteira do Mirco ao médico aqui na Itália e sempre fiquei impressionada com a distância, o abismo que existe entre médico e paciente. A começar pela maluquice dos horários das consultas: não existe horário marcado, o médico atende das cinco às oito? Você vai ao consultório dentro dessa faixa horária, e vai ser atendido por ordem de chegada, o que significa zilhões de pessoas amontoadas na sala de espera. E como a maioria dos médicos atende em consultórios divididos com outros médicos ou dentistas, você nunca sabe se toda aquela gente está ali esperando o seu médico ou outra coisa. Então cada pessoa que chega, além do buongiorno ou do buonasera obrigatório, pergunta sempre “Quem é o último da fila pro Dr. Fulano?”. Uma coisa muito pouco prática. Às vezes realmente acho que estou morando em Coimbra.

Mas então, voltemos à enfermaria. As horas passavam. Mirco dormiu; eu desci pra comer uma torta al testo com presunto e queijo na cantina do primeiro subsolo. Lá pras duas da tarde vêm recolher Mirco e Claudio pra levar pra sala de cirurgia. Lá vou eu atrás; boto o pijaminha verde do centro cirúrgico, que eu não vestia há anos, a maldita touca que nunca consegue cobrir todo o meu cabelo, os sapatinhos, a máscara que um dia usei sem nem prestar atenção mas que dessa vez ficou incomodando o nariz, como na primeira vez.

Mirco está nervosíssimo. Como eu, ele fica irritado se não entende direito o que está acontecendo, principalmente se é alguma coisa que está acontecendo diretamente com ele fisicamente. Eu tenho essa vantagem de ser médica que ele não tem: pelo menos sou capaz de entender com detalhes o que está rolando e de saber mais ou menos o que esperar; ele não tem idéia e ri de nervoso o tempo todo. Pra piorar, ele é naturalmente desconfiado, o que não é ajudado nem um pouco pelas frequentes histórias de erro médico que se lêem nos jornais; então sua resposta a todo mundo que vem perguntar quem ele é (toda hora vinha uma enfermeira diferente fazer algum procedimento pré-anestésico ou pré-operatório) é Mirco Balducci, joelho esquerdo. Assim, só pra reduzir as chances de ser operado erradamente no joelho direito. Resolvem dar um tranquilizante, e ele começa a falar coisas sem sentido e a ter dificuldade de articular palavras. Fazem a anestesia, um bloqueio da perna toda através de injeções na região inguinal e no meio do glúteo, e vamos pra sala de cirurgia.

Posicionados todos os campos cirúrgicos, pincelam a perna com aquele desinfetante marrom-amarelado que já cansamos de ver em filmes e Globo Repórter, prepara-se o equipamento de artroscopia e começa o procedimento. Não vou ficar aqui explicando tudo porque não interessa. O que interessa é que eu fiquei horrorizada, apesar de ter sido uma coisa muito simples. E pensar que um dia eu já fui capaz de ver um procedimento desses e pensar nossa, que lindo, que interessante! Pensar que um dia eu já fui capaz de futucar dentro de alguém e achar isso a coisa mais natural do mundo! Onde é que eu estava com a cabeça, alguém me diz, por favor? O ortopedista futucava, puxava, cortava, mostrava, olha lá, não é o menisco, o menisco está firme (ele puxa o menisco com a pinça, várias vezes, com força), é um ligamento mucoso congênito que inflamou e agora está retesando tudo, tá vendo?, vou cortar (e corta), e eu lá, chocadaça, sem saber se olhava pra tela ou pro joelho amarelo do Mirco, que estava tão nervoso que esquecia de respirar e chorava sem parar. Fui ficando nervosa porque ele não respondia quando perguntávamos se estava sentindo dor. Mais tarde ele contou que depois do tranquilizante tudo ficou, obviamente, muito nebuloso e ele se lembrava só de algumas palavras, do médico batendo no rosto dele perguntando se tava sentindo alguma coisa, da enfermeira que marcou os pontos de anestesia com pilot, do campo verde que impedia que ele visse a tela (se tivesse visto alguma coisa ele teria morrido de nervoso, com certeza), dos enfermeiros pincelando a perna, das luzes do corredor da sala de cirurgia enquanto ele esperava um outro enfermeiro que o levasse de volta ao quarto.

Quando acabou, a sensação de alívio que eu tive foi uma das coisas mais significativas que eu já senti na minha vida. Não pertenço mais àquele mundo. Acho que jamais pertenci; foi tudo sempre uma ilusão idiota. Sempre digo que não me arrependo de ter estudado Medicina; aprendi coisas interessantíssimas, matei toda a minha curiosidade sobre o corpo humano, conheci pessoas ótimas, dei muita risada, aprendi a ouvir as pessoas, a aprender com os outros, a entender a dor alheia. Mas não sou médica. Nunca fui. E só fui entender isso anteontem.

**

Como ele teve que dormir no hospital, voltei pra casa sozinha. Chovia muito e o trânsito estava horrível. Quando consegui chegar na estrada, começou o calvário. Sou muito fotofóbica e dirigir à noite na estrada é muito desconfortável. Na cidade, que bem ou mal é bem iluminada, não tem problema, mas no escuro da estrada qualquer luz de farol, de olho-de-gato iluminado, de outdoor na beira da estrada, me dá um lampejo nos olhos e me deixa momentaneamente cega. Depois de meia hora eu não entendia mais as distâncias, a terceira dimensão; perdi a noção do ponto de freagem nas curvas; não conseguia ler as placas; não conseguia achar o timing pra ultrapassar porque olhando pelo retrovisor não conseguia entender se o carro atrás de mim estava longe ou perto. Cheguei em casa cambaleando de cansaço e com a cabeça explodindo de dor. Fiz um risoto de pacote e fui direto dormir.

**

Ontem o dia estava lindo. Saí de casa cedo pra ir a Perugia pegar um cheque por um trabalho que fiz ano passado, e enquanto estava lá, perdida (eu sempre me perco em Perugia), Mirco liga dizendo que já estava pronto pra ir embora. Faço o que tenho que fazer e volto pra estrada, pegando a direção de Terni. O dia continua lindo. Boto Skank no CD e canto A Cerca a plenos pulmões. A paisagem é divina, divina; as cidadezinhas no alto das colinas vão passando, muito claras contra o céu azul; o verde obsceno dos campos chega a ofuscar; castelinhos, casarões e mosteiros abandonados me enchem de curiosidade. A Umbria é linda, linda, linda. Ali na altura de Todi a paisagem é particularmente deslumbrante. Alguém vem me visitar, por favor, que eu preciso mostrar isso pros outros!

**

Semana que vem começa o curso de agente de seguros, lá em Terni mesmo. É uma cidade industrial, principalmente siderúrgica, muito, muito feia. Há muitas pedreiras também, então as colinas em torno são todas “mordidas”, a feia pedra branca exposta ao sol, em contraste com os escuros ciprestes e pinheiros. Já estou prevendo uma semana chatérrima.

E agora dá licença que meu paciente precisa de uma injeção de heparina.


posted by leti at 08:05

Sexta-feira, Março 12, 2004  
Outro dia me peguei perguntando por que só falo de bobagem aqui, por que nem sequer comento acontecimentos de grande porte na ordem mundial. Como essa coisa hedionda em Madrid, cidade que ainda não conheço.

A verdade é que não há o que dizer. Discutir o óbvio é muito cansativo, como diz minha mãe. Não há o que dizer. De verdade. Além do que a vida já é muito, muito ruim nas CNTP, então prefiro não ficar remexendo esses assuntos, sobre os quais tenho opinião formada sem precisar ficar discutindo eternamente ou vendo fotografias horríveis no jornal. Prefiro falar das panquecas de Nutella, que pelo menos adoçam a vida.

Mas confesso que agora fiquei com medo de ir a Paris na Páscoa.

**

Então mais tarde escrevo sobre o meu momento de iluminação no hospital e sobre a horrível volta pra casa dirigindo sozinha pelas estradas da Umbria, ouvindo Red Hot Chili Peppers. Agora tenho umas missões office-boy pra resolver. Meu ócio, apesar de aprazível, infelizmente não ajuda Madrid nem dá dor de cabeça ao Mr. Bin (Laden).


posted by leti at 08:01

Quinta-feira, Março 11, 2004  
E hoje o Mirco foi fazer a artroscopia do joelho. Foi uma experiência reveladora em muitos sentidos, mas agora estou muito cansada e amanhã escrevo com calma.

posted by leti at 22:11

 
O jantar de ontem ficou ótimo. Inventei umas receitas malucas, testei uma receita da Ane e tudo saiu gostoso. Eu, FeRnanda e Dila fofocamos muito em Português. Faz bem socializar assim de bobeira de vez em quando.

Vamos ao menu:

Antipasto: Mini-tortas de cebola e de queijo com presunto
Primo piatto: Gnocchi lunghi com molho de tomate picante
Secondo piatto: Carne Assada Boazuda
Contorno: Forminhas de batata com espinafre
Sobremesa: Panquecas de Nutella (usei a minha receita clássica de panqueca, só juntei uma colher de sopa de açúcar à massa. Passei uma grossa camada de Nutella em uma metade da panqueca, dobrei-a e pronto.)

Detonamos uma garrafa e meia de Rosso di Montefalco da Caprai, um dos nossos preferidos, e uma de Rubesco da Lungarotti que o marido da Dila trouxe.


posted by leti at 22:10

Terça-feira, Março 09, 2004  
A quantidade anormalmente grande de produtos de limpeza na varanda da vizinha por si só já era uma confirmação da sua nacionalidade brasileira. Mas o nome que vi numa conta de luz que o carteiro deixou em pé sobre o escaninho por não ter encontrado nenhum escaninho com aquele nome fechou o diagnóstico: Suely Maria. Não é bom, mas podia ser pior. Vamos ver.

Amanhã tem jantar aqui em casa. Além da FeRnanda e do Fabião, vêm a Dila, baiana casada com o Italo, primo distante do Mirco, e talvez Selminha, que estudou comigo em Perugia há dois anos e é amiga da Dila. Ainda não decidi o cardápio; tinha resolvido tudo mas mudei de idéia várias vezes e agora não sei mais o que cozinhar.


posted by leti at 11:05

 
sexta-feira, 5 março

Saímos de casa às quinze pras dez da manhã. O vôo saía às 13:45 do aeroporto de Pisa, mas é bem longinho daqui, por isso tanta antecipação. Mesmo assim chegamos na lata, mal deu tempo de comer alguma coisa antes de embarcar. Na nossa frente, na fila do embarque, uma bicha velha beijava seu companheiro, que ficou em Pisa. Tava tão ocupado se agarrando que simplesmente tinha se esquecido de fazer o check-in, e queria embarcar só com o numero da reserva eletrônica! Levou um esporro da mulherzinha que fica dando instruções ao pessoal tapado da fila.

Viajamos com a BasiqAir, companhia low-fare holandesa. A bicha velha sentou no corredor, na fila à minha esquerda. Na fila à frente dele, duas holandesas e um bebê que chorou muito no início do vôo. As duas conversaram o vôo todo e davam tanta risada que todo mundo já tava rindo junto com elas. De repente, um cheiro de cocô no avião – a mãe do bebê resolveu trocar a fralda do garoto ali no banco, um fedor pavoroso, e a amiga só rindo, rindo, gargalhando. Dei muita risada também :) Na fila à frente delas, um casal de velhos holandeses e uma mulher-macho holandesa. Essa foi uma das últimas a embarcar, e, não achando mais lugar nos bagageiros próximos a onde ela estava sentada, acabou botando sua bagagem de mão no bagageiro bem em cima de mim. Ela veio pegar uma sacola de sanduíche e quando voltou pro seu lugar acho que pisou no pé do velho, que deu um grito de dor tão alto que todo mundo no avião parou pra ver o que ela. Começou então uma discussão estranhíssima em holandês, a coitada da mulher pedindo mil desculpas e tudo mais. Durou uns 2 minutos. Depois começaram a conversar amigavelmente e logo logo já estavam rindo do incidente. A senhora holandesa sentada do lado do Mirco, na janela, tinha comprado uma máquina de café espresso tão grande que não conseguia botar em lugar nenhum. Ajudamos a coitada a espremer o caixote no bagageiro cinco fileiras atrás, e ela ficou só sorrisos a viagem toda. Gosto desses holandeses; são simpáticos.

Rob, o namorado da Stefania, estava nos esperando no aeroporto de Schiphol. Stefania estava vindo de trem de Rotterdam e estava ligeiramente atrasada, como sempre. Demos umas voltinhas, cumprimentamos três afghan hounds que estavam com os donos esperando o filho deles que chegava de viagem, e fomos pegar o carro. Eram quatro da tarde, e decidimos aproveitar o resto da tardinha pra visitar Amsterdam correndo, já que estávamos lá mesmo.

Olha... AMEI. AMEEEEEEEEEEEI. A cidade é DIVINA. A arquitetura é uma coisa de louco: as casas são longas e estreitas e com amplas janelas tanto na frente quanto atrás, o tijolinho é o material mais usado, de todas as cores, formatos e combinações possíveis. Praticamente não existem persianas e são raras as cortinas: o máximo de privacidade é uma faixa de vidro opaco no meio da janela, ou tipo um quadro de vitrais coloridos apoiado na vidraça ou suspenso do teto através de correntinhas. De qualquer forma, dá sempre pra ver a janela do fundo da casa, que invariavelmente dá pra um jardinzinho fofo. Todo mundo bota alguma coisa bonita na janela: na maioria dos casos belíssimos vasos de flores, mas também vi gatos (de verdade e não), réplicas de veleiros, esculturas. A impressão que dá é que o pessoal bota essas coisas bonitas pra adoçar os olhos de quem passa na rua. O engraçado é que, apesar as janelas dando diretamente pra rua, e assim tão expostas, tão amplas, tão nuas, em momento nenhum tive uma impressão de invasão. As pessoas passam e olham porque é bonito, mas não ficam tentando ver lá dentro, fuxicando. Por outro lado, quem está do lado de dentro não tá nem aí: trabalham em seus computadores, tomam chá, brincam com os gatos, sem dar a menor bola pra quem está passando e olhando.












As casas ao longo dos canais são ligeiramente inclinadas pra frente, e têm um negócio perpendicular à parede, lá no alto, onde são instaladas roldanas quando há necessidade de levar móveis pra dentro ou pra fora de casa. Toda essa maluquice tem uma explicação, não menos maluca: como as escadas internas das casas são incrivelmente apertadas, perpendiculares e com degraus estreitos, não há mesinha de cabeceira no mundo que consiga passar por elas, quanto mais um sofá! Por isso as mudanças são feitas pelo lado de fora.

As ruas são limpíssimas e as bicicletas passam pra lá e pra cá sem incomodar ninguém. A quantidade de imigrantes é impressionante: segundo o Rob, são quase 40% da população da cidade. Há restaurantes e lojas especializadas de tudo que é nacionalidade: dos onipresentes turcos aos do Suriname. O cheiro de comida no ar muda a cada dez metros, dependendo do tipo de restaurante em frente ao qual você está passando.

Essa é o buraco pra correspondência na porta de uma casa em Rotterdam: o dono da casa colou um adesivo que explica o tipo de publicidade que ele quer ou não receber. Ja (sim) pra vendedores porta-a-porta, e nee (não) pra panfletos em geral. Muitas casas têm adesivos nee pras duas coisas. É sempre o mesmo adesivo; deve ser comprado em papelaria. Achei bem legal. Aqui na Itália muita gente cola um bilhetinho na caixa de correspondência de casa, dizendo que panfletos não são bem-vindos. Não é necessário dizer que tais bilhetinhos são solenemente ignorados pelos distribuidores de panfletos.




Passamos pelo bairro da luz vermelha. Casas de show pornô mostram muito, digamos, graficamente, em grandes fotografias, o tipo de espetáculo que oferecem. As prostitutas nas vitrines em neon vermelho falam no celular pra se distrair enquanto se exibem de sutiã e calcinha. A maior parte delas, previsivelmente, é imigrante, feia e gorda.

A noite vai caindo e os interiores das casas vão se iluminando. A cidade fica transparente: pelas grandes janelas vê-se perfeitamente tudo que está lá dentro. Muito estranho, muito bonito, muito tranqüilo.






Infelizmente não deu pra ver nada direito. O Rob é altíssimo e pernilongo e anda muito rápido (e olha que eu também ando quase correndo, mas não dá pra competir com aquelas pernas enormes). Além disso já estava escuro e chovendo, e as lojas fecham cedo, no final das contas não entramos em lugar nenhum, só demos umas (mil) voltas a pé mesmo. Mas valeu cada bolha no pé. Quero voltar com mais calma, na primavera ou no verão.

Pegamos a estrada e fomos pra Rotterdam, onde o Rob mora. Deixamos as malas em casa e fomos jantar no restaurante de um amigo dele. Veio outro casal de amigos, a Petra, filha de mãe tailandesa e pai também oriental, e René, muito simpático. A comida não era lá essas coisas, mas fazer o quê... Acho que estou ficando chata que nem os italianos. Tudo o que eu experimento de novidade eu acho uma porcaria e não trocaria por um bom prato de massa nem por todo o dinheiro do mundo. Mirco pediu risoto de legumes e uma carne, mas o cozinheiro achou estranho pedir as duas coisas (aqui na Itália seriam dois pratos separados, um primo e um secondo), achou que era comida demais e resolveu, por contra própria, juntar tudo no mesmo prato, em porções reduzidas. Engraçado foi que eu também fiquei indignada ;) A gente se acostuma a tudo nessa vida.




Estávamos cansados e morrendo de sono, então voltamos logo pra casa. O Rob é meio alternativo, e a casa dele é cheia de coisas esquisitas, o telefone fica no chão, o colchão idem, há quadros estranhos nas paredes. Mas ao mesmo tempo é muito legal. Stefania espalhou suas ervinhas aromáticas pela casa toda. E obviamente não faltam os vasos nas janelas.










bado, 6 de março

Eu e Mirco acordamos cedo e com fome. Lá fora nevava sem parar, mas mesmo assim volta e meia passava um maluco de bicicleta embaixo da janela.



Ficamos batendo papo esperando alguém se levantar, mas tanto o Rob quanto a Stefania são meio lentos pra acordar, então descemos e fomos tomar café. Quando estávamos terminando a Stefania desceu, juntou-se a nós, trocou de roupa e fomos dar um passeio a pé, pra aproveitar que a neve tinha parado de cair (o tempo é muito louco por aquelas bandas, cruzes). Fomos ao supermercado, onde compramos várias coisas que nem sei o que são mas tinham embalagens lindas, e à farmácia. Quando voltamos o Rob já estava de pé e pronto pra sair. Pegamos o carro e fomos até a área portuária de Rotterdam. Vimos as casas-cubo, horripilantes – mas até nelas neguinho bota flor na janela, não tem jeito.




Paramos num barzinho pro Mirco comer alguma coisa, que já era tarde, e depois fomos até a central do Spido, um barcão que faz um tour do porto. Achei muito pouco turístico porque porto é porto, pombas, é um saco de ver, mas até que deram algumas informações importantes: vimos um galpão-frigorífero IMENSO onde armazenam suco de laranja, quase todo vindo do Brasil; fiquei sabendo que o porto de Rotterdam é o maior do mundo em volume de carga e descarga de petróleo; e fiquei boba com o nível de automatização da coisa. Fiquei com a impressão de que nós no Brasil estamos anos-luz atrás.








Voltamos pro centro e fomos pra um barzinho enorme, de pé direito altíssimo, super descolado e cool, chamado Dudok. Comemos uns belisquetes, alguns super picantes mas deliciosos, uns croquetes de carne típicos da Holanda, e pedaços de um queijo típico holandês que gruda no céu da boca. Àquela altura do campeonato já eram seis e meia, e não nos restava nada além de voltar pra casa e nos preparar pro jantar duas horas depois, num restaurante de comida da Indonésia que o Rob tinha reservado.

O tal restaurante é o seguinte... Achei a comida uma merda, mas já falei que estou virando xenófoba alimentar feito os italianos, então não levem muito em conta a minha opinião. Nós pedimos uma coisa chamada rijsttafel, palavra holandesa (não me perguntem a pronúncia, que língua miserável esse holandês! É bonito de ler, cheio de duplas vogais esquisitas, mas falada é pior que alemão, vou te dizer) que significa mesa de arroz. Em teoria seria uma combinação de vários tipos de arroz, mas é uma combinação de vários pratos da culinária da Indonésia. Claro que ninguém come assim na Indonésia, mas a coisa foi pegando e acabou virando um clássico em todos os restaurantes desse tipo na Holanda. A rijsttafel é mais um exemplo de bobeira adaptativa, como o biscoito chinês da sorte que não é chinês coisa nenhuma mas uma invenção americana que acabou colando.



A comida é TODA picante. Não havia NADA de não-picante em toda a mesa – e olha que eram 22 pratos. Muitas coisas agridoces, combinações bizarras (que tal côco frito com vagem?), um molho de amendoim que é uma das coisas mais horríveis que eu já experimentei na vida. Acabou que comemos pouquíssimo; eu e Mirco porque não gostamos de nada e Stefania porque é vegetariana. Rob mandou ver. A conta veio tão picante quanto os pratos. Fomos dormir sonhando com um prato de pasta al pomodoro e basilico, tão simples e tão maravilhoso.







domingo, 7 de março

Chovia muito, MUITO, quando acordamos. Eu acordei cedo com as crianças do vizinho de cima, que marcham pra lá e pra cá pela casa o dia todo. Tomamos banho e descemos pra tomar café. Começamos a ver Como Água para Chocolate em DVD enquanto o Rob não descia (que filme bobo!) e acabamos saindo sem ver o final. Fomos procurar moinhos e acabamos indo parar em Kinderkijk, não muito longe de Rotterdam. A paisagem é de tirar o fôlego, e ainda demos sorte que o sol deu uma saidinha e cheguei até a tirar as luvas e o cachecol em alguns momentos. Claro que sem vento os moinhos não giram, mas considerando o clima, foi melhor assim. Se estivesse ventando eu não teria saído do carro nem por um milhão de moinhos cravejados de diamantes.









Pois é, então, os moinhos. São lindos, lindos, lindos. Há moinhos velhos e novos, todos limpos, pintadinhos, habitados, com jardinzinhos atrás, com patinhos nos canais. Originalmente eram usados pra bombear a água, eterna inimiga dos Países Baixos, de volta pros rios, tornando assim habitáveis, cultiváveis ou pastáveis terras que de outro modo estariam sempre submersas. Alguns moinhos são abertos ao público na primavera. Mais uma razão pra voltar...




Passamos na casa do Fred, irmão do Rob. Ele é decorador e tem um jardim japonês muito maneiro. Digo maneiro e não bonito porque eu detesto a estética oriental. Mas o cara caprichou nos bonsais e nas carpas, e o efeito ficou bárbaro. Dentro de casa, a coleção de peças de arte em vidro do cara, toda exposta com lampadinhas embaixo! A casa parece um museu! E cada peça de vidro que dava até medo, de tão feia. Alguns belos vasos de Murano, mas a maioria uma droga contemporânea que eu não botaria na minha casa nem se me pagassem. Nenhum grão de poeira em lugar nenhum da casa. A mulher, SUPER simpática apesar da pesadíssima maquiagem, veio nos receber com uma calça de couro justa (veja bem, esse casal tem uns 45 anos), botas de salto alto e uma malha preta com bordados brancos na frente. Eles estavam esperando uns amigos pra irem juntos a uma mostra de peças em vidro. Quando chegam os tais amigos, surprise! A mulher com a mesma malha da dona da casa, calça de couro e bota de salto! Demos muita risada, porque a coisa não foi combinada, nem elas sabiam que a outra tinha uma malha igual! Ficamos lá ainda enrolando um pouco, morrendo de medo de respirar mais forte e fazer cair alguma preciosa e horripilante escultura de vidro, e fomos embora.

Fomos procurar um lugar pra comer antes de ir pra Bruxelas, de onde saía o nosso vôo pela Ryan Air. Acabamos indo parar em Dordrecht, clássica cidadezinha holandesa com as clássicas casinhas de tijolinho e os clássicos vasos de flores nas janelas. O único lugar aberto era tipo um diner. A dona falou que nos tínhamos que comer correndo e ir embora, porque o lugar estava reservado pra um aniversário a partir das duas e meia. Tudo bem, só que a comida não chegava nunca! Os donos da festa todos emperequitados, correndo pra lá e pra cá botando as mesas, ajeitando enfeites, espalhando bandejas com salgadinhos, e nos bem no meio do salão, esperando nossos croquetes com batata frita. Depois de horas a comida chegou, e saímos correndo assim que terminamos.

Dormi no carro no caminho pra Bruxelas, mas do pouco que vi da estrada o estilo arquitetônico muda muito pouco entre um país e outro. O aeroporto de Charleroi é microscópico e estava cheio de gente esquisita. Muitos mochileiros americanos, que hoje podem perfeitamente rodar a Europa com as companhias aéreas low-fare, em vez de usar o trem.

O avião era novinho, a tripulação simpática, e o único lugar vazio era a poltrona do meu lado. Consegui me esticar e tirar uma sonequinha que depois veio a ser providencial, porque levamos séculos pra chegar em casa. Toda vez que voltamos da Toscana erramos a saída de Firenze que temos que pegar, e dessa vez não foi diferente. Demos uma volta danada. Ainda por cima teve um acidente muito grave bem antes da nossa saída pro anel rodoviário de Bettolle-Perugia, e ficamos parados 40 minutos ouvindo música e sem saber o que estava acontecendo. Chegamos em casa quase meia-noite, fizemos um risoto Knorr e fomos dormir.

**

Engraçado como o conceito de casa é relativo, subjetivo, mutável, diáfano, instável, momentâneo, provisório. Só sossego quando começo a ver as placas de lugares conhecidos: Foligno, Gubbio, Assisi, Terni. Quando saio da Toscana e entro na Umbria já me sinto em casa; vou observando a já familiar paisagem do Lago Trasimeno, as saídas pras belas cidades em torno ao lago, primeiro Tuoro, depois Magione, Passignano, e logo depois já estamos em Corciano. À esquerda vejo a gigantesca concessionária Fratelli Montagna, que enriqueceram vendendo Ford, Mazda e Jaguar; depois a concessionária Ferrari e Maserati, ao lado da Casa del Lampadario e da fábrica de brinquedos; à direita o Warner Village, os cinemas do centro commerciale Gherlinda. Começam as saídas pra Perugia: Ferro di Cavallo, Madonna Alta, San Faustino, Prepo, Piscille, todas conhecidas, amigas, familiares. Entre uma saída e outra, entre um túnel e outro, vemos as torres e as luzes de Perugia nas colinas. Depois vem a saída pra feia Ponte San Giovanni, que também leva a Torgiano, formando um trevo perigoso perto da concessionária Mercedes-Smart e da loja de eletrodomésticos. Continuamos na direção de Assis, e passamos à direita do centro commerciale Collestrada, onde fica o Ipercoop, hipermercado onde adoramos fazer compras. Continuamos na pista da direita, ignoramos a saída pra Ospedalicchio e pro mini-aeroporto de Santo Egidio (perto de Ripa, onde a FeRnanda vai morar), oba, tamos chegando, à esquerda a Scai, revendedora de tratores, à direita mais à frente a Scarpe & Scarpe (Sapatos & Sapatos), a loja com o letreiro mais horrendo do mundo, depois a Divani & Divani (Sofás & Sofás), a Conbipel, loja de roupas onde trabalha a dona do nosso apartamento, a Metro, um supermercado tipo Makro. Pegamos a saída Bastia Umbra Nord, giramos à esquerda pra pegar a Via Cipresso, cujas transversais todas têm nomes de capitais européias: Vienna, Londra, Mosca (Moscou), e a nossa, que fica em frente à via Lisbona, onde aliás mora o Fabrizio o Louco. Chegamos em casa.

Home is where the heart is. Mesmo.

**

Quanto mais eu giro por aqui, quanto mais coisas bonitas e civilizadas eu vejo, mais eu me convenço de que o Brasil é uma merda. É uma merda enorme, fedorenta, petrificada no tempo e no espaço. É uma merda porque poderia ser, de verdade, o melhor país do mundo pra se viver, uma potência mundial que os outros países não teriam nem vontade de invejar porque somos legais, alegres, criativos, comemos bem, falamos uma língua linda. Mas não é, e esse desperdício é incrivelmente irritante.. O Brasil é um país de merda, que suga e inutiliza todos os esforços dos pouquíssimos felizardos que tiveram a imensa sorte de ter recebido, além de uma boa educação formal, uma boa educação em casa, e querem mudar as coisas. A gente nada, nada, nada e morre na praia, exausto, sfinito. O resto, a massa, acha tudo ótimo. Todo mundo fala que uma coisa legal no Brasil é que o brasileiro ri sempre, mesmo estando na merda. Não acho isso nada legal, muito pelo contrário. Um pouco de revolta nos faria muito bem. Mas somos preguiçosos, acomodados, pacíficos demais, índios demais. Basta uma bunda rebolativa pra esquecer os sapos que engolimos todo dia, toda hora, o tempo todo. O Brasil é uma sanguessuga. Uma sanguessuga muito da desgraçada, porque a gente sente saudade dela quando está longe.

Mas eu acho que o Brasil não tem jeito. O prognóstico de um país cujo povo acha super normal jogar lixo na rua é sombrio, muito sombrio.




posted by leti at 09:42

Segunda-feira, Março 08, 2004  
Cheguei. Preparem-se, que amanha tem verborragia.

posted by leti at 00:52

Quinta-feira, Março 04, 2004  
Eu devo ter picado muita salsinha na tábua dos dez mandamentos mesmo. Não só a nossa mais nova vizinha de porta tem a maior cara de piranha latina como agora há pouco, quando entrei em casa, ouvi Adriana Calcanhoto saindo da casa dela! Socorro! Claro que não conheço a mulher, mas além de ter uma aparência SUPER vulgar e de provavelmente ser brasileira caça-gringo, ela ainda tem mau gosto musical! A prova final vai ser descobrir o nome. Assim que eles colocarem o adesivinho com o nome lá embaixo, no escaninho*, eu aviso. Valdiclélia Terezinha? Grace Kelly de Jesus? Mychelly Ferreira? Jakellyne Silva? Façam suas apostas.

Acho que é hora de aproveitar as minhas olheiras árabes e o cabelo ruim e fingir que sou síria, em vez de só bisneta de sírio.


*Aqui não só não tem porteiro (aliás, nem portaria) como também não há numeração nos apartamentos. Quem vier à sua casa vai chegar lá na porta do prédio, procurar o seu sobrenome no interfone, interfonar pra sua casa e você vai dizer em que andar está. Os escaninhos e as campainhas têm mais espaço pro adesivinho, e cabem nome e sobrenome.


**

Liguei pro aeroporto de Pisa hoje e me asseguraram que a greve programada pra amanhã já foi furada antecipadamente e não vai rolar. Partimos normalmente pra Amsterdam por volta das duas da tarde, e voltamos no domingo, partindo de Bruxellas, em torno das sete da noite. Finalmente vou conhecer o namorado gigante da Stefania :)

Ci vediamo fra un paio di giorni, darlings.


posted by leti at 17:28

Quarta-feira, Março 03, 2004  
Finalmente consegui tirar a maldita carteira de identidade! Olha que coisa antiquada e enorme... Bom, ninguém aqui usa mesmo, o documento mais usado é a carteira de motorista. A de identidade só serve pra circular pela União Européia, mas eu, extra-comunitária, não tenho esse direito; a identidade só serve dentro da Itália mesmo.

Atentem para o fato que meu último sobrenome não cabe na linha e ficou cortado mesmo.
Atentem também para a profissão, doméstica hohoho





posted by leti at 12:07

 
This page is powered by Blogger.